20/09/2026

Revolução Farroupilha: quando cuidar também era parte da batalha

Artigo de Opinião: presidente da AMRIGS, Dr. Gerson Junqueira Jr.

Quando lembramos a Revolução Farroupilha, pensamos em batalhas, líderes e ideais que atravessaram gerações. Há, porém, uma história menos conhecida: a de quem cuidava dos feridos e doentes em um Rio Grande do Sul marcado pela guerra, pelas distâncias e pela escassez de profissionais.

Entre 1835 e 1845, faltavam cirurgiões, medicamentos e estrutura. Até hospitais militares enfrentavam dificuldades para garantir equipes, remédios e alimentação. Algumas figuras da Revolução também estavam ligadas às práticas de saúde.

José Gomes de Vasconcelos Jardim, liderança farroupilha e presidente da República Rio-Grandense na fase final do conflito, atuava na área da saúde com conhecimentos adquiridos pela experiência. Em sua propriedade, em Pedras Brancas, atual Guaíba, Bento Gonçalves passou seus últimos dias sob seus cuidados. Pedro José de Almeida, o Pedro Boticário, tinha papel importante na preparação e no fornecimento de medicamentos.

Do lado legalista, Johann Daniel Hillebrand, médico alemão formado na Universidade de Göttingen e radicado em São Leopoldo desde 1824, posicionou-se ao lado das forças imperiais e tornou-se líder entre os colonos alemães, participando da organização da resistência local e exercendo funções administrativas e militares. Sua trajetória mostra como, naquele contexto, o papel do médico podia ultrapassar o atendimento aos doentes.

Nos confrontos, cirurgiões lidavam com fraturas, ferimentos, amputações, doenças e infecções em condições precárias. Registros do período mostram que até o Hospital Militar de Porto Alegre sofria com falta de profissionais, remédios e alimentação adequada. Cuidar dos combatentes também era parte da batalha.

Quase dois séculos depois, a ciência transformou diagnósticos, tratamentos e a formação médica. Mas permanece atual um princípio: uma sociedade precisa preparar bem aqueles a quem confiará o cuidado de sua população.

É nesse percurso da Medicina gaúcha que a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) celebra seus 75 anos. Desde 1951, a entidade participa dessa história por meio da educação, da ciência e da valorização profissional. Dos médicos-práticos, boticários e cirurgiões de campanha à Medicina científica do século XXI, permanece a missão de colocar conhecimento, preparo e humanidade a serviço da vida.

Presidente da AMRIGS
Dr. Gerson Junqueira Jr.




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