03/04/2025
Parte dos médicos gaúchos apoia a aplicação de exame de proficiência para o exercício da Medicina
Fórum Interativo promovido pela AMRIGS e CFM debateu o impacto do exame para a qualificação da Medicina no Brasil e mostrou em números a visão de médicos sobre o tema
O Fórum Médico Interativo realizado pela Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), na noite desta quarta-feira, 2 de abril, teve como objetivo ouvir a opinião da classe gaúcha sobre a implantação obrigatória do Exame Nacional de Proficiência em Medicina, cuja maioria dos presentes (65%) se mostrou favorável. O evento foi conduzido pelo presidente da AMRIGS e conselheiro eleito do Conselho Federal de Medicina pelo RS, Dr. Gerson Junqueira Jr., e contou com a participação de seis médicos de alto escalão acadêmico e científico, que discutiram as implicações da medida para a qualidade da formação e da prática médica no Brasil. A dinâmica do encontro foi totalmente participativa, com a aplicação de um questionário com alternativas pré-definidas. Os resultados foram exibidos em tempo real na tela, permitindo que os debatedores reagissem às opiniões dos participantes nas modalidades presencial e online.
A favor da implementação do exame, a Dra. Rosylane Nascimento das Mercês Rocha, 2ª vice-presidente do CFM, destacou a necessidade de uma qualificação mais rigorosa para os médicos em um cenário de crescente número de faculdades de Medicina no país.
“Atualmente, possuímos 292 processos em andamento para abertura de faculdades, o que nos coloca em primeiro lugar no ranking internacional. A previsão é de que, em breve, o Brasil conte com mais de um milhão e meio de médicos. No entanto, a oferta de vagas para Residência Médica ainda é insuficiente. É fundamental alertar aos acadêmicos e médicos que, para avançar na carreira, a realização da prova de proficiência é imprescindível”, afirmou.
O fórum também abordou a qualidade do ensino médico e a infraestrutura das escolas de Medicina. Dr. Florisval Meinão, secretário geral da Associação Médica Brasileira (AMB), enfatizou a importância de garantir a segurança do paciente.
“A AMB sempre defendeu a implementação do exame, e, com o passar dos anos, chegou-se à conclusão de que ele é uma necessidade. Infelizmente, as escolas de Medicina não estão formando profissionais devidamente preparados para acolher o paciente, o que é uma realidade preocupante. Há uma carência de docentes qualificados, a infraestrutura é inadequada e faltam hospitais universitários capazes receber os futuros médicos”, destacou.
A coordenadora do curso de Medicina da Universidade Federal da Fronteira Sul, Dra. Bruna Chaves Lopes, provoca outro questionamento:
“Reconhecemos que temos problemas e isso é unânime. A única dúvida que levanto é se o exame será capaz de resolver essas questões”.
Em sua manifestação, o diretor Regional Sul I da Associação Brasileira de Ensino Médico (ABEM), Dr. Francisco Arsego, reforçou a seriedade do cenário.
“Desconsiderar a complexidade da formação médica é um erro significativo que a sociedade precisa urgentemente reconhecer”.
Quem também comentou o assunto foi a diretora da Faculdade de Medicina da UFRGS, Dra. Lucia Maria Kliemann, que alertou sobre a importância de analisar a base educacional dos estudantes.
“No passado, o vestibular de Medicina era extremamente concorrido, e os alunos que conseguiam ingressar tinham um domínio sólido das técnicas de estudo. Essa é uma diferença fundamental. Hoje, vemos muitos alunos que não sabem estudar, reflexo de políticas educacionais que eliminaram a reprovação nos primeiros anos do ensino fundamental e, posteriormente, no ensino médio, onde a avaliação muitas vezes se resume a trabalhos. Como resultado, muitos ingressam na universidade sem desenvolver métodos eficazes de aprendizado e acabam avançando sem essa base essencial", disse.
Dr. Vitor Feuser da Rosa, presidente da Associação dos Médicos Residentes do Rio Grande do Sul (AMERERS) e ex-presidente do Departamento Universitário da AMRIGS, também se mostrou favorável à implementação do exame, mas alertou sobre a necessidade de definir claramente o formato do teste.
“Não se trata de um problema simples de resolver. Enfrentamos uma abertura excessiva de faculdades, o que, de alguma forma, terá impacto nos cuidados com os pacientes no futuro. Sou favorável à implementação dessa prova, mas é essencial determinarmos critérios capazes de atender as demandas do setor”, afirmou.
O conselheiro do CFM pelo RS, Dr. Carlos Sparta, acredita que o debate foi construtivo e mostrou que o exame pode impactar positivamente tanto o ensino quanto a prática médica.
"As entidades médicas, que antes não tinham consenso sobre o assunto, agora mostram uma postura mais clara. No evento vimos que a maioria dos participantes se manifestou a favor da implementação do exame. O resultado está em sintonia com a recente pesquisa do Conselho Federal de Medicina, que ouviu quase 50 mil médicos em todo o país e revelou que mais de 84% dos profissionais do Rio Grande do Sul também acreditam na necessidade de um exame de ordem. A pesquisa e o debate de hoje mostram que o ensino médico precisa de mais atenção e aprimoramento", afirmou.
O médico ainda se manifestou favorável as escolas de Medicina sofrerem sanções devido à baixa avaliação. Também salientou a importância de o estudante estrangeiro fazer o Revalida e depois ser submetido ao exame de proficiência.
Resultados
Outros dados levantados no questionário mostraram que 68% dos participantes acreditam que a Prova de Proficiência vai impactar positivamente no trabalho do médico. Um percentual similar, de 67%, respondeu que a prova vai melhorar a qualidade do ensino médico no país. Questionados se o Exame de Proficiência ajudará a identificar fragilidades no currículo acadêmico, o resultado foi de 76% favoráveis. Outra indagação foi se a prova deve ser usada como avaliação de desempenho das instituições de ensino e, neste cenário, 94% concordaram. Os participantes em sua ampla maioria (97%) foram adeptos a aplicação do método teórico e prático. A respeito do momento em que o exame deve ser realizado, 68% apontou como melhor opção “ao longo do curso” e 29% responderam “ao término do curso”. Por fim, 73% dos presentes disseram que a implementação de um Exame de Proficiência terá um impacto positivo na confiança dos pacientes no médico.
Uma carta de intenções com os assuntos debatidos bem como os resultados apresentados será encaminhada aos senadores da República, com o propósito de abastecê-los com dados que ajudem na decisão da possível implementação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina no Brasil.
Redação: Marcelo Matusiak