A Copa do Mundo além do futebol: o que os países-sede ensinam sobre saúde pública
Artigo de Opinião: presidente da AMRIGS, Dr. Gerson Junqueira Jr.
A Copa do Mundo costuma mobilizar olhares para atletas, seleções e torcedores. Mas o clima do Mundial também pode inspirar uma reflexão que vai além do futebol. Ao conhecer melhor as experiências dos países-sede da atual edição - Estados Unidos, México e Canadá -, o Brasil tem a oportunidade de analisar diferentes modelos de saúde pública, reconhecer avanços, identificar limites e pensar sobre os próprios desafios. Cada nação organiza seu sistema de forma distinta, mas uma lição atravessa todas elas: não existe cuidado forte sem acesso, financiamento adequado, profissionais valorizados, formação qualificada e compromisso público com a vida.
Nosso país tem uma conquista que precisa ser reconhecida e defendida. O Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores modelos públicos universais do mundo e garante atendimento como direito de todos, independentemente de renda ou vínculo empregatício. Vacinação, transplantes, vigilância epidemiológica, atenção básica, urgência e tratamentos complexos formam uma rede de alcance extraordinário em um território marcado por grandes distâncias e realidades diversas. Ao mesmo tempo, filas, desigualdades regionais, dificuldade de acesso a especialistas e subfinanciamento ainda impedem que essa estrutura se traduza, sempre, em resposta rápida e resolutiva.
Há, ainda, uma preocupação atual da Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), junto a outras entidades médicas, que precisa estar no centro desse debate: o crescimento excessivo de faculdades de Medicina no país. O Brasil se aproxima de 500 cursos de Medicina, a segunda maior quantidade do mundo, atrás apenas da Índia, que tem uma população cerca de seis vezes maior. Em termos proporcionais, nenhum país possui tantas escolas médicas. Formar mais médicos não pode significar formar profissionais sem estrutura adequada, campo de prática suficiente, corpo docente qualificado e acompanhamento rigoroso de competências.
A qualidade da formação médica deve ser tratada como tema de segurança assistencial. Dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) apontam que uma parcela significativa dos novos médicos conclui a graduação com deficiências graves de proficiência e conhecimento prático. Isso não pode ser naturalizado. A expansão desordenada de cursos, sem garantia de excelência acadêmica e treinamento consistente, coloca em risco o futuro da Medicina e, principalmente, a proteção dos pacientes.
A análise dos países-sede oferece comparações relevantes. Os Estados Unidos mostram a potência da tecnologia, da pesquisa e da alta complexidade, mas também revelam que investimento financeiro e sofisticação científica não bastam quando parte da população encontra barreiras econômicas para receber atendimento. O México evidencia o desafio de expandir cobertura em meio à fragmentação, com diferenças de renda, emprego e região ainda pesando no acesso. O Canadá reafirma o valor de tratar a saúde como direito, embora enfrente filas para consultas, exames e cirurgias eletivas, além de dificuldades de distribuição de profissionais em áreas mais afastadas.
Para o Brasil, a principal lição talvez esteja no equilíbrio. Precisamos preservar o SUS, ampliar financiamento, reduzir desigualdades e incorporar inovação com responsabilidade. Também temos algo a ensinar ao mundo: saúde pública, vigilância, campanhas de vacinação e atenção territorial são patrimônios sociais valiosos. Ao mesmo tempo, é urgente compreender que acesso não se constrói apenas com quantidade. Na Medicina, qualidade de formação, supervisão adequada e responsabilidade técnica sustentam a confiança da sociedade.
A Copa do Mundo passa, mas os sistemas de saúde ficam. E a verdadeira vitória será transformar a curiosidade despertada pelo Mundial em aprendizado para unir ciência, humanidade, proteção social, capacitação médica de qualidade e cuidado seguro para todos.
Dr. Gerson Junqueira Jr.
Presidente da AMRIGS